sexta-feira, 29 de junho de 2018

O fim de um amor

O fim de um amor não é um momento. É um processo. Um caminho. Lento. Árduo. Doloroso. Pejado de pedras e de areias fininhas que nos dão cabo dos pés e da alma. É uma espécie de intervalo na vida, em que sais da estrada principal para poderes percorrer o atalho que te rasgará e voltará a reconstruir-te. Quando um sentimento esmorece lá fora, agiganta-se cá dentro, transforma-se numa fera enfurecida pois não sabe mais para onde há-de ir ou a quem se deve dar. Acabar com um amor é quase como prender o coração numa camisa de forças e dar-lhe doses infinitas de calmantes na esperança de que ele se esqueça enquanto dorme e enquanto está confinado às suas próprias amarras. O fim de um amor requer paciência, a mesma que nem sempre estamos dispostos a cultivar, na pressa de saltar passos e chegar mais depressa [sendo que, na maioria das vezes, nem sequer sabemos onde queremos chegar]. O fim de um amor requer que nos abandonemos à profunda tristeza que o mesmo causou. Engolir as lágrimas de nada servirá. Mais vale chorar tudo de uma vez, assumir perante o nosso ego a mágoa que sentimos e que nos dilacera. Lamber as feridas causadas pela ausência. Arrumar o caderno preenchido pelas memórias, por mais que nos custe. Comprar meia dúzia de folhas em branco e começar a vislumbrar o que vamos lá escrever ou desenhar. O fim de um amor requer tenacidade perante a passagem dos dias e a escuridão das noites. Talvez o que mais custe sejam mesmo as noites, aquele momento em que o silêncio toma conta de tudo e em que conseguimos ouvir o choro sentido do nosso coração ferido. E dói [como dói] ouvir um coração a chorar. O fim de um amor é uma espécie de fronteira entre duas forças que guerreiam. A seu tempo, conseguiremos sair de lá e caminhar em direcção ao recomeço e à promessa do novo.


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